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NOVA YORK- Eu adoro o cineasta Roman Polanski. Filmes como "Chinatown" e "O Pianista" são obras de arte. Já a saga do cidadão Roman Polanski não merece um happy end. Merece um final real e não de Hollywood, a não ser que existam leis especiais para pessoas famosas e geniais. Parece que existem. Elites artísticas e políticas europeias e americanas ficaram indignadas porque Polanski foi preso na Suíça e pode ser extraditado para os EUA por ter estuprado repetidamente uma menina de 13 anos em março de 1977.
Que petulância da Justiça. Ela não sabe com quem está falando? Talento deve ser exonerado. Mesmo gente que eu respeito muito como Bernard Henry-Lévy decepcionou. Este intelectual público francês disse que Polanski deu alguns tropeções na juventude (tinha 43 anos), tudo passável. Por esta visão supostamente sofisticada, não podemos ser provincianos, presos no nosso moralismo pequeno-burguês ou puritanismo americano. Por que perseguir agora este gênio das artes de 76 anos?
Já é difícil separar o homem da arte, mas a genialidade e a fama não podem ser um escudo para quem cometeu um crime hediondo, não importa se hoje ou há pouco mais de 30 anos. Não é assim que autoridades franceseses reagiram num primeiro momento (Polanski tem dupla cidadania franco-polonesa). O ministro da Cultura, Fréderic Mitterrand, disse que o crime "era uma velha história que não faz sentido".
Tambem é absurdo argumentar que apenas existe interesse no caso e o promotor, à la inspetor Javert, correndo de forma obsessiva atrás de Polanski, porque ele é famoso. Nosso voyeurismo não deve livrar a barra de uma celebridade. É o tal argumento que ninguém se interessaria pela história se o estuprador fosse um anônimo. Insensata é esta corrente de solidariedade a um criminoso. Políticos franceses não souberam julgar a reação popular (este povão pequeno-burguês) e agora se distanciam deste apoio inicial a Polanski.
Mas por que o apoio em primeiro lugar? Existiu esta cumplicidade entre elites e o artista, embora Polanski tenha confessado o crime em Los Angeles (de sexo com uma menor, não de estupro). Estas elites não lêem? Não sabem do depoimento juramentado da menina? Ela foi seduzida pelo cineasta com promessas de fotos de alta costura. Alcoolizada, drogada e despida, a menina foi estuprada várias vezes na jacuzzi, apesar dos apelos para que ele parasse. Não foi confusão se a vítima era realmente vítima ou caso de um artista "chocando a burguesia".
Existe ainda o argumento absurdo de que Polanski foi seduzido por uma ninfeta ou que ela recebeu o que merecia, pois deveria saber da "queda" do cineasta por garotas?
Antes do crime, Polanski ja era cause célèbre, uma vítima da história. Sobreviveu ao Holocausto e sofreu com o assassinato da mulher grávida, Sharon Tate, pelas mãos da gangue de Charles Manson. Vida trágica, mas nada disso muda os fatos posteriores ou atenua o crime de estupro. O garoto fugitivo do Holocausto se tornou um adulto fugitivo. Não pode ser tratado como um coitadinho, le misérable.
No final das contas, tanto no caso do Roman Polanski, que estuprou uma garota de 13 anos ou do Michael Jackson, que molestou o garoto de 13 anos, não podemos absolver o sujeito porque adoramos os objetos de sua arte.
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