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Pitty abusa de referências literárias e contrastes sonoros em "Chiaroscuro" E-mail
Escrito por Redação   
MARIANA TRAMONTINA

Do celular do amigo Rafael Ramos, Pitty avisou: "estou dentro do estúdio, me dá um minuto que vou sair para a gente conversar melhor", enquanto os companheiros de banda falavam ao fundo. "Estamos gravando umas músicas em espanhol", contou ao UOL Música. Em setembro, Pitty toca em Buenos Aires, mas não é exatamente esse o motivo dos registros em castelhano. "É muito divertido, me senti num filme de Almodóvar. Não sei se vamos fazer um EP, se vamos lançar na Argentina ou se é só para a gente se divertir mesmo, só sei que a gente está fazendo", falou rindo.

Dividindo a diversão com o trabalho, Pitty e os amigos Duda (bateria), Joe (baixo) e Martin (guitarra) estavam também ensaiando as faixas de "Chiaroscuro", o novo disco da cantora baiana que já está pronto e embalado para chegar às lojas na próxima terça-feira (11). "A turnê começa em outubro e preciso transpor para o palco as experimentações que a gente fez no disco", contou. Ela se refere aos sons tirados de forma analógica para o álbum e que agora deverão soar semelhantes ao vivo.

Lançado pela Deckdisc, o terceiro disco da cantora vem com 11 faixas inéditas em formato CD, vinil e digital. O sucessor de "Admirável Chip Novo" (2003) e "Anacrônico" (2005) foi gravado no estúdio Cabo da Goiabeira, montado na casa do baterista. A produção é de Rafael Ramos, que mandou o registro para ser masterizado em Los Angeles pelas mãos do engenheiro Brian Gardner, que já trabalhou com figuras como David Bowie, Foo Fighters e Prince.

O resultado é traduzido já no título do disco: "'Chiaroscuro' é uma palavra italiana para 'claro/escuro', e também uma das técnicas de pintura de Leonardo Da Vinci. Quando estávamos gravando, percebi que as músicas tinham um contraste em termos de sonoridade", definiu. Essa dualidade aparece em faixas mais sutis e sensoriais ("Me Adora" e "Rato na Roda") ou mais soturnas e densas ("A Sombra" e "Trapézio").

Referências e entrelinhas
As composições são repletas de entrelinhas sarcásticas e referências literárias, de Dostoiévski, Balzac e Simone de Beauvoir a poemas sobre Esopo, todas trabalhadas em bases rock com soul, tango, bolero e até música erudita. Os melhores momentos estão na melodramática "Água Contida" (imbuída em um tango com direito a violinos e refrão rocker), na bem humorada "Fracasso", na hipnótica "A Sombra" e em "Rato na Roda", com um clima de Legião Urbana.

Trabalhando em cima de detalhes nos arranjos, como o som de chuva caindo ao fundo de "Só Agora", Pitty recomenda fones de ouvido para tirar melhor proveito de seu registro. "São muitas guitarras, sintetizadores, efeitos. Sempre gostei dos grupos vocais femininos da década de 50 e 60, e resolvi entrar nessa onda. A ideia era eu comigo mesma, fazendo todas as vozes e criando as harmonias com a minha voz", revelou.

A primeira música de trabalho, "Me Adora", já está nas rádios desde 14 de julho, com o refrão propositadamente debochado "que você me adora/ que me acha foda/ não espere eu ir embora pra perceber". Os mais puritanos podem ficar incomodados com a expressão, mas Pitty desconstroi a ideia de palavra "feia". "Foda não é palavrão há muito tempo, as pessoas não usam mais como conotação sexual. Para a minha geração é adjetivo, e era a única palavra que eu podia usar para dizer o que eu queria naquele momento", contou. "A língua muda, senão ainda estaríamos nos tratando por 'vossa mercê'".

Apesar das mudanças na linguagem, Pitty acredita que os jovens de hoje ainda estão politicamente corretos demais, como branda na tribal "Todos Estão Mudos", uma brincadeira com a canção de Roberto Carlos "Todos Estão Surdos". "Todo mundo quer ser bonzinho o tempo todo, as pessoas têm medo de dar suas opiniões, como se fosse ofensa pessoal. A gente nunca passou por uma ditadura, por uma guerra, nada tão radical que nos impelisse a ter esse espírito de mudança mais efetiva. Acho que é todo mundo muito passivo", teorizou.

Por outro lado, Pitty defende suas ideias e conceitos nos canais que mantém contato direto com os fãs, como seu site e seu perfil no Twitter. Foi no microblog, por exemplo, que ela escreveu: "Tem gente que ainda acha que pra ser rock basta guitarra distorcida e cara de mau. Não basta. Ah, o tempo...". Segundo ela, as pessoas mais novas acreditam que rock and roll se faz com esses elementos clichês. "Não sei se eu já vivi o suficiente para entender que Billie Holiday é muito mais rock do que um monte de banda que eu vejo surgindo hoje em dia e sendo vendida como tal", disse a cantora de 31 anos.

 
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